quinta-feira, 6 de agosto de 2015

"fragmentos de um discurso amoroso" ou fragmentos do causal

Jean-Pierre-Léaud
aos intelectuais
de porta de botequim,
dos rincões dessa terra,
onde todos sentem 
plenitude e miséria.

prefácio
a cidade o olha, de algum modo, e ele-que-é-todos a olha, a admirar sua organicidade.
os corpos rijos, belos, a procura, de um lado profissional, doutro pessoal, satisfação de prazeres, vagina, pênis, tudo se degenera, o tempo é uma questão de sorte, melhor, a vida acopla a morte, sonata de notas puras, tal melodia se mostra para alguns, outros a ignoram, conhecê-la demasiado é correr o risco, assim como o canto das sereias, quanto mais prazer, perto a morte está, quanto mais dor mais a sublime morte está, a vida também, ambas são a mesma moeda, dois lados, ora se inverte, ora se esposam.
a necessidade de concentração diante do caos sonoro, só faz surgir vontades fúteis; estar em casa, para quê? viver do ócio, se degenerar no serviço doméstico, procure alguma diversão na televisão, no celular, a modernidade inventou escapes para prender a atenção, mas essa resiste, como bom combatente a dar prazer, esquecer, tal como o ditado “a ignorância é uma dádiva”, cabe aos momentos atuais da concentração.
se matar, ato corajoso, ou covarde? enlaçar uma âncora ao pescoço e se jogar, utilizar as asas, poder libertá-las e se libertar.
diante de toda descrença, se esconde um coração afundado em incertezas, medo, impotência, longe de ser pedante, ou querer tocar outrem através das afirmativas.  

*

essencialmente o nada só se encontra em dois lugares, na morte e nos buracos negros, o primeiro gera mais dúvidas.
como pode lutar um coração que nunca se aquece entre braços carinhosos, entre s u s s u r r o s aos ouvidos? essas sensações parecem traços de uma infância mal vivida ou pura carência.

*

o movimento é a permanência das coisas, da vida e da morte, ambas coexistem a um fim específico, pois a vida não se finda com a morte, nem vice-versa, seu sentido se encontra na oposição, a negativa se afirma como movimento necessário espécie de manutenção da sagacidade, qualidade daquilo que avança (?).
qualquer sentimento por mais que arrebate, caminha para uma mesmice, o movimento que embala, escrever histórias, fazer música, escutá-la, pintar, suprime por tempo determinado a mesmice.

*

não se alimentava bem, mas fumava incessantemente, ia aos lugares fumando, chegava, estava nos lugares, saia, fumando, como se o cigarro fosse o seu oxigênio. isso o deixava sensível quanto a resfriados, baixa imunidade, ademais acrescenta-se a tudo já dito, o seu sempre bom humor a convites de toda sorte para ir beber, fosse onde fosse, se sucedia ser lugares que gostava de freqüentar. se  bem que muitas vezes mal acompanhado, ia mesmo pelo prazer boêmio.
nos dias de porre, não lhe escava nem os mendigos, os pedintes, esses de bom grado sempre lhe pediam moedas ou um cigarro, sendo o último o mais corriqueiro a dar, não se pode negar, nem tampouco esquecer os que lhe pediam fogo, esse sempre disposto num de seus bolsos.
os rasgos em suas roupas se acumulavam, pudera, tendo se deleitado em seus pequenos prazeres burgueses, não lhe sobrava nada, além do pouco para alguma comida, mais cigarro e noites na boemia. ali o lubrificante das longas minutas de discussão era o álcool, gentil amigo, neste caso particular, em que bem não fazia, mal também, cada qual escolhe seus vícios. não havendo verdade, apenas experimentações, vivências, dele que é o outro. menos unificador, mas pluralizante, e isso não insinua nem de perto, nem de longe qualquer similaridade com a globalização.
amor, isso pouco lhe custou, não existia, nem existiu, as relações se forjam sob esta dura sentença, para desaguar na amargura de toda espécie de infortúnios. existe convivência, apego, sexo, desejo, etc.

*

todo aquele suor escorrendo por suas voltas, linhas suntuosas, brilho, a pele reluz, arde de desejo seu olhar, espreita cada detalhe revelado diante de seus olhos.  tentada, tentava se conter, na verdade, tenta conter suas vontades, desencadeadas em longas divagações, que quem não visse o que viu, acreditaria ser obsceno, tantinho pornográfico. pela primeira vez não se escondia, deixava soltos seus pensamentos, para por fim agir como lhe convinha.
o objeto de seu desejo, do seu olhar que agora titubeia, mas que ainda deixa réstias de suas vontades. aquele homem, cheirando forte, suado, desfaz do desejo do outro, nesse instante o homem é apenas o homem, não o outro. o desejo do outro talvez o assuste, se ausente, ou o afaste, ou o use para semear pensamentos que perturbem as noites tediosas.

*

quebrou uma garrafa de vidro, os olhos mareados ondeavam vermelhos, álcool exalando de seus poros, desferiu o primeiro golpe, alguns segundos bastaram para perceber que o que escorria era sangue, quase pastoso de início, depois escorre, o primeiro golpe não bastou para aplacar o ódio que cerrava seus dentes. o segundo golpe, mais forte que o primeiro, aplacou parte de seu furor de ira, de quem se sente traído, as mãos começaram a sentir o líquido viscoso, o sangue, gelou-o, ao invés de aquecê-lo com o calor das veias perfuradas. agora se sentia vingado. a ira cedeu lugar a calma, a dor que sentira ao ver tal cena, rodeada na sua mente, se transformara numa mansidão.
no fundo sabia que ferir o outro era se ferir, ferida com ferida se sente, provara isso com os cortes provocados com o que se transformara, agora, em garrafa de sangue. acendeu um cigarro manchado de vermelho.

*
 posfácio

- ei mocinho, volta, esqueceu seu amor aqui, mais atenção!
- ei mocinha, deixou cair seu amor, por pouco não pisou, é frágil, poderia tê-lo esmagado.
desatenção. ato I. pressa, passos ligeiros, o ônibus está saindo, corre, corre. se vista rápido, acordou atrasado, trânsito.
distração. sair para comer, - esqueci o celular em casa, - dá pra olhar pra mim enquanto falo?!
os dias, somatizados no tempo, o tempo que transcorre, devora, enrugará as têmporas, levará quem mais ama, isso se não for antes. o tempo seria a morte? de certa maneira a morte e o tempo são aliados. a morte da abelha, a morte da cigarra, a nossa morte, tudo está acontecendo e nada acontece. o sol não envelhece? a lua descansa? O amor um grito que escorre no canto da boca. entreaberta a porta do banheiro, será proposital? e depois, consumado o ato? e depois de conseguir o que se quer? o depois de agora, uma continuidade, um fio que se liga a vida, ou o fio é que liga a vida e a morte? questionar tanto ainda te levará a águas turbulentas, esse perfume no ar, seduz, chama sua atenção?
na boca o gosto se fixa, nele divaga, absorve o que sobrou, nada, ou quase p o u c o.
uma troca de roupa para não dizer que não se afeta no afeto. as fotografias mentem, retratam o que não existe, as horas, ou melhor o excesso de horas te calou, distanciou, te levou embora. a paz refrigério para o coração do tempo.
esse beijinho te lembra infância? isso, é isso, um amontoado de memória, memória que pulsa, movimenta, se desfragmenta e se recompõem. rostos, nítidos, miragens, vocação para lembrar, maldição em se aborrecer, borrão feito a caneta, alterada a grafia. liga o motor do carro, da a partida, vamos embora, a estrada ainda é o movimento, chegar aonde existem calçadas para se sentar, lamentar a perda, lamentar? esse egoísmo pequeno, construto social, o prédio já foi pó, poeira, o prédio é o vazio, o vazio organismo vivo. editor? consegue um? vai ler, fazer valer, é isso? isso são memórias, elas falam contigo, rabiscam a língua, molham seus olhos, por sua vez a lágrima se movimenta, você se movimenta, não fora, mas dentro, fora também, vasculha, a não, chegou na lixeira, você prometeu, prometeu sim, ai você não mexeria, pronto, as lágrimas viraram um comboio, se enoja, se sente sujo, a voz sai baixa, como se tivesse levado uma surra, não, sai lamuriosa, pesada, arrastada, se pudesse mudar não teria ido embora, mas talvez teria ido, não era abandono, era retorno ao que se perdera, todo retorno te leva ao perdido? venha, pode vir, não vou revelar as reminiscências, me amaldiçoara, não me importo, o que está feito não se modifica, memória traumática, violou a disposição cedida, já percebeu que alguns momentos respondíamos a estímulos, agora concordo, não somos ratos de laboratório, não? se nasce, te condicionam a ser, então com dor se é, mas nesse condicionamento haverá recompensa, ó meu bondoso deus, já está tudo acertado.

saiu no jornal, estamos numa boa fase de investimento, amanhã compro um aspirador que aspire tudo, tristeza, memórias traumáticas, subterrâneas, - pára com isso!, rivoltril faz o mesmo efeito – dito em tom ameno, grifo a m e n o, não precisa sofrer, não sofra, ria, ria, r i a, agora chore, chore, caminhe, olhe para os lados, ó o carro, filho-da-puta, trânsito maldito, e esse som ligado no último, para de dançar, recebeu um guia, não existe homofobia, viado bom é viado morto, poeta morre pobre, saiu aquele carro repaginado, mas você já tem três óculos, amo aquele aplicativo, água, água é negócio de deus, uma foice de camisa preta, a religião é o ópio, prefiro maconha, eis o movimento. e o Universo olha e nada vê, com nada se importa. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

batismo

todos os dias sou batizado
voluntário me banho
trindade cristalizada
corre por todo o corpo
expurga os equívocos
vasto mundo percorre
gesto incolor
delicado avança na mais máxima intimidade
imaculado, joga pelo ralo
toda morbidez,
sou conversão
transmutada em conversação
a água e a palavra
nicho que jorra
transborda do sagrado
a margem.

                estou batizado.
Evgen Bavcar @

desapontamento

André Kertész @
as cadeiras, de tarde ocupadas, a noite solitárias, será sempre essa angústia, remoendo a chorar amores que inexistentes na tentativa de compor amores existentes?
os móveis aos poucos de maneira astuta foi se apossando, levando-os como se quisesse me tirar aos poucos as lembranças que habituado estava a enxergar. pareciam uma parte sua na composição.
pergunto-me se não existirá intensidade maior que suprimirá essa dor aguda?, croissant, leite, café, saliva, seu olhar risonho a me desejar traiçoeiramente bom dia, qualquer descuido me levará para as entranhas da mais pura solidão, acompanhado do vazio, do nada existente no escuro, naquilo que não alcanço e nem hei de alcançar.

esses novos braços trás um cheiro que te acalenta
sou todo poeira nas paredes de seu quarto
 poderei ser o nada que outrora te banhava de luz
 pretensão
não aceitar a verdade que me cobria que só agora com minhas lentes posso sentir tamanho desespero em peles, que possam me gerar qualquer sensação forjada que acomode.
os braços atuais sabem te embalar?
gaste todas as suas forças no involuntário desespero de encontrar o jeito de meus braços em outros,
 sua pele
grita
a sua incapacidade de ouvir.


-*-

préfacio

Um candeeiro se acende trazendo uma inspiração de tempos longínquos que queima nas entranhas.
Vislumbrada a morte, a coruja canta, embala as memórias, trás o tênue sorriso de minha mãe, um misto de ternura e mansidão, na inércia não me locomovo só retraio nesse fogo misterioso, espreito na escuridão do pátio banhado pela luz negra, dispersos corações distraídos pela sedução de seus próprios corpos encarnados a se movimentar.
Um abrigo qualquer no relento me acalenta, entre o pátio escuro e a miragem de uma luz em que se espera, mas não chega, a intensidade da escuridão é tão forte que não se pode saber em qual posição se acomoda, pra cima, virado, de costas de verso, reverso, perscruto se a morte se materializou na ausência, ou se sou a ausência a revelar a escuridão que habita no hábito de vestido preto que a mãe veste, nas lentes escuras que afunda as lágrimas e as esconde, chamariz de insetos peçonhentos, quando o galo cantar a luz se acenderá ou dormirei na eternidade?

Velha ribanceira que me atirou num atoleiro, lá a morte me abraçou com dentes lustrados, afiados, pontiagudos, brilhava como se seduzisse príncipe, já não sei se principiei, ou se principiaram, perca total, impossível voar agora que minhas asas com forte corte os deuses as sentenciaram, não ouço vozes, somente o silêncio, nem mais a coruja canta, os grilos, pirilampo, nada existe nesse lugar, por vezes chego a pensar que estou num campo vasto, outras num corredor apertado, falta o ar, de repente, o ar não mais existe, mesmo com prontidão não existem ordens para obedecer, somente escuridão. 
Edward Weston
 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

pequenos fragmentos III

André Kertész, Distortion. Miroir. Mirror. Spiegel. Verzerrong.
I. Criamos a cria que cria a nossa ferida.

II. Cela: a circunferência confeccionada a nossa volta.

III. Cera: o prazer do fogo em consumir o fio.

IV. O vazio se configura em um status complexo, nunca se está vazio, seja dentro ou fora. Muitas coisas passam, perpassam, somente reina, nesse instante vazio, uma relativa ausência de sentido, ligação frágil, por instante rompida, o lugar, os objetos, ausência de palavras, o silêncio. Templo sem sentido? A marca texto desliza sobre o papel, a manchar com cor as letras, na tentativa de em vida eternizá-las grifando-as. Tão fugaz, percebera em si, como estrondo, que o ato não prende a frase, só a destaca do todo, ainda sim fugaz.   

V. Quando as cores se misturam, anoiteço.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

pequenos fragmentos II

boiadeiro @wesleydavid
            Fragmentar o mar/lacrimejar no ar/resta só o amar/ [adentro no vento]/de que é feito o tempo?/senão um tormento, lamento de um sólido/[a pedra, gasta, esgarça?]/o vazio do pulsar/ o encontrar.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

pequenos fragmentos I

Fernand Léger, Natureza morta com uma caneca de cerveja , 1921
trôpego, bêbado, cheio do vazio/[confusão]/fumaça adentra, escapa entre os dedos/o espaço escuro/silêncio/transformar o outro quando custa se transformar/retorno do vazio/[sou]/e por tão ser já não sei não ser/o que era então no ventre?/ a memória que antecede a racionalidade/[esquecimento]/sou o complexo máximo do vazio. 

domingo, 4 de agosto de 2013

Carlos Vergara - Beija-me imbecil

você perdeu
[se perdeu de mim
do caminho, da trilha
[perdeu o endereço
tudo o que te trazia
[perdeu a volta.

você em mim
[desconfigurou
de tanto perder e no perder
você já não é
o purgar de um gozar
[alma-suor-corpo
a te louvar.

todo movimento
[me retendo
livre agora presa do ar.

as palavras macias
[a tilintar
abraço de sua própria embriagues
descom(passada).

tropeças diante do ego
envelhecido
[vinagre.

o fim a procurar
o meio esteio do inicio.

resta-nos tão-somente
[a sobra
da simbiose do néctar.

cobre-nos agora a noite vagarosa
veste-nos de suave frieza
[consciência irradia
a bela melodia

desvairada do ser.

domingo, 16 de junho de 2013

Ismael Nery
a vida se faz
no cruzar da esquina,
no romper da noite
depois do inundar do dia;
entre o desprender
a gota da nuvem
e o pingar na testa
a vida se refaz.

a vida se refaz
com o beijo molhado na testa,
com a torrada e o sorriso de bom dia,
nas mãos a segurar as chaves do portão
o ato da vida se refaz.

a vida se desfaz
com a pílula química, mentiras macias,
ausência de flores, na solidão do concreto,
o tiro no silêncio, nas mãos que agride,

a vida se esvai.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

longe, lejos

Duane Michals

A chuva caia com pingos finos - ficava a fitar o céu, que pouco ou quase nada dizia, apenas escorria seus pingos frios que tocava sua pele desconhecida para aquela gota, assim como a essência da gota lhe era estranha, de matéria líquida - caia de forma tímida.

Jogava todo o seu corpo na cama, a cama em resposta suas lágrimas enxugava e lhe abraçava, sua pele esquentava, roçava – colchão e pele.

Suas sensações estranhas tinha conhecimento de que essa estranheza partia de si para a sensação. Esperava quase toda sua vida por dividi-la com quem obtivesse as chaves que abriria o seu coração, o desarmando. O amor estava traduzido em caos, descontrole, e toda essa paz estava ali dentro de si sem ter conhecimento de sua morada. Seus receios em agir segundo o que sentia já não mais existiam.

Jogava todo o seu peso na cama, a cama em resposta suas lágrimas enxugava e lhe abraçava, seu corpo esquentava, sua pele roçava – mente e colchão.

Aquela chuva que ainda caia empurrava-o - e sem reservas se entregava a enxurrada que o levava para lugares tão ocultos, imersão, transubstanciação, mesmo abraçado pela cama podia sentir que as gotas que havia caído em si ainda estavam em si, fusão, assim como o processo da nuvem a derramar suas gotas ele-ser-diverso-universo estava em processo, a cada transição uma elevação.

Jogava todo o seu peso na cama, a cama em resposta suas lágrimas enxugava e lhe abraçava, seu corpo esquentava, sua pele roçava - colchão.

Seu corpo era a barreira, a parede que segurava o seu espírito, cada vez que se libertava dessa prisão podia sentir seu ser a invadir o universo sendo-o, em expansão ultrapassava todo o universo e percebia quão pequeno são as coisas que seus olhos podiam ver; talvez isso fosse um segredo, teu para com a vida; talvez devesse gritar e assim romper as algemas que prendem as coisas ao seu redor, ai se sentia mais uma coisa entre tantas e t-a-n-t-a-s coisas.

Jogou todo o seu peso na cama e a cama em resposta lhe abraçou, suas lágrimas enxugou, seu corpo esquentou, sua pele roçou - dormiu.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

gira-sol

Duane Michal

O menino natureza
todo feito girassol
busca o sol.
Luzes a noite iludir o tentam.
A astúcia que o veste
deixa seu caule
de verde enseirado, camurçado.
A vida de um menino girassol ensinara
a confiar na essência da luz
e não na luz.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Lamento do que não vingou

Duane Michals - Primavera

Abrilhanta teu céu com o meu.
Faça florescer as flores de teu jardim permitindo o amar.
Veja os lírios da sala, amontoados sobre a mesa,
toda essa beleza se exibindo para olhos desapercebidos.
Recordação dá-te para que se lembre do meu amor,
tão ignorado pelo emaranhado dos dias que se acumulam com riscos na folhinha,
tão cheia de afazeres.
Seja pra mim o renascer, florescer, e nunca o morrer.


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Estação

http://wwwescrevercomluz.blogspot.com.br/

Transborda pingo a pingo
Já se fora a tristeza
De tantas lágrimas o céu
A derra(mar)
Inunda fecunda
O sorriso
A jorrar a vida
Tão contida
Inaudita só explícita
No silêncio
Rompido pelo transbordar.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Baile del vida


Ele ali sentado, o momento de se acalmar, parar um pouco, a pausa de sua enfadonha rotina. Não. Talvez sua rotina não fosse tão enfadonha. Suas botas empoeiradas, seus cabelos brancos, seu uniforme cinza escuro que deveria ser quente em dias ensolarados.
Passavam por si e só passavam. Ninguém o olhava a recolher do chão toda sujeira ali deixada, todas as pontas de cigarro imprudentemente jogadas, sua função manter a ordem do limpo, deixar todo o ambiente hostil e tenebroso do lugar um pouco mais acolhedor.
Observava e gastava bons minutos a observar os que vinham e iam. Os que carregavam livros nas mãos eram seus prediletos, questionava que diabos haveria nesses livros, de certo perdiam tanto tempo para lê-los todos, mas não julgava, pois perdia vários minutos, também, do dia a observar.
Sua mulher morrera cedo o deixando sozinho na labuta da vida que não tem como escapar além de vivê-la e vezenquando encontrar bons ouvidos para reclamar e contar boas histórias.
Não sabia se havia alguma missão em sua vida além de limpar e passar o dia nessa sina que já habitual lhe era.
Apesar de cristão não tão fervoroso, fumava, porém era regrado, separava no seu dia três intervalos, fora o almoço, para pausar e acender um cigarrinho, na hora que via alguém acendendo um em lugar inapropriado sentia certa autoridade para dar uma advertência para se dirigir para a área dos fumantes.
Willy Ronis
Das três vezes que pausava durante o dia, em duas delas tomava um café, claro, pensava consigo, que o de sua mulher era bem melhor, mas depois que se fora jamais encontrara café igual.
Não era de viajar, não tinha parentes longe logo não haveria necessidade ou motivo de se locomover para outros cantos.
Tinha uma irmã mais velha criada pela tia, porém por ter começado a trabalhar muito novo, se mudar e casar não tivera tanto contato nem o mínimo com sua irmã, sentia um grande arrependimento, mas o que faria se não cuidar de sua vida.
Seu sonho além de ter tido um filho homem, o qual não tivera, era ter trabalhado no exercito que nem chegara perto.
Depois de tanto confabular consigo, ele-o-faxineiro levantou, agarrou a sua companheira de anos e ferramenta de trabalho e se prontificou a fazer o que fazia limpar.
Deixara bem evidente que sua vida não lhe parecia triste muito pelo contrário, foi e é feliz, ser amado, conseguiu o que poucos conseguem, mas a tuberculose a levara, ela era danada daquelas criadas noutro tempo, que hospital, só servia para quem não confia em Deus, ela-sua-esposa não iria não, preferia, caso tivesse que morrer, em sua cama, no seu quarto, na sua casa, pois se fechasse os olhos estaria de imediato no céu a admirar a glória.
Essa vida tem muito em comum com a própria vida. Via tantos mendigos, moradores de rua onde trabalhava e ficava indignado a sujeição desses cabras com a vida, mas como pode não resistirem a dureza do pão duro. Eu mesmo – exclamava quando se colocavam para ouvi-lo – comi tanto pão duro com café e nunca cedi, mesmo quando perdi meu tesouro levado por aquela doença maldita, ah mas Deus sabe o que faz! Preferia vê-la descansar do quê a sofrer, a pobre não merecia mais sofrimento, se recusava a tomar até os remédios.
Certo dia, não sabia especificar, foi assistir um teatro de rua, disseram-lhe que era uma peça, não entendeu bem, sabia apenas que se tratava de coisa de ator, veio em si uma vontade gritante de assistir aquilo, pois foi o que fez. Na rua mesmo um bando jovem se movimentava d’um lado para o outro, a falar coisas que já tinha escutado: coisas da vida, da mulher que trai o cabra, dos operários que se revoltam contra o patrão, de homem com homem; sentia-se até orgulhoso por entender tudo aquilo, entendia, pois anos a fio via pessoas embarcarem e desembarcarem no seu serviço, gente que nunca sequer imaginou que existia nesse mundão de Deus. Se tivesse um filho ia querer que o guri assistisse essas coisas pra saber que existe gente que trabalha disso falar da vida, ele-o-faxineiro sabia fazer isso, oxi tinha tanta história para contar, mas não se vestia como os jovens atores e ficaria até com vergonha de falar no meio e diante de tanta gente.
Sua casa uma modéstia só, mas era sua, sua mesmo, havia terminado de pagá-la a dois anos, vivia e ali morreria, como seu tesouro.
Por vezes, até lia, com alguma dificuldade jornais esquecidos nos bancos ficava tão alterado que preferia jogar no lixo todos aqueles jornais. Tanta morte, violência, fazer o que se a vida descambou nisso.
O relógio despertou as seis, abrira os olhos e nada via com nitidez. Suas pernas formigavam e suas mãos estavam dormentes, imaginou que poderia ser um sonho ou a sensação de estar acordado porém dormindo; uma estalada no seu peito dissipou sua suspeita de estar a dormir, os segundos passaram a dor forte aumentara e não se dissipara, de súbito viu seu tesouro a rir, calmo riu; pois já estava morto, encontrado morto, morto com um sorriso como quem aceita a morte, morto a sorrir.