sexta-feira, 8 de junho de 2012

Meandros


Não lhe parece estranho esse doce olhar a mirar-te como se fosse o único foco reluzente em todo o emaranhado de imagens que perseguem as avenidas solitárias com tantos espíritos a vagar a procura de qualquer sexo com cheiro de prazer que possa ocupar o espaço que outro deixou quaisquer lábios que possam oferecer um hálito fresco e jovial de amor barato que com qualquer nota se consegue.
Não lhe parece estranho esse seu corpo a vagar por tantas e tantas encruzilhadas sem ao menos fazer qualquer trabalho com garrafas de vinho e rosas vermelhas para trazer um amor que lhe faça sossegar e que seja complacente com todas as mentiras que gostas de contar a todas aquelas que te ouvem pela primeira vez e se encantam com toda essa ginga que parece que desceu do morro para enfeitiçar as meninas do Leblon.
Não lhe parece estranho que com toda essa idade que dizes ter quando bebes não transparece nos seus atos frenéticos de querer sempre se sobressair com suas histórias que habitam num passado do qual não podes retornar pois lá ficou e de lá não sairá.
Duane Michals
Recolho esse olhar doce para tentar amanhã mirar alguém que ao menos perceba todas as suas fraquezas e defeitos e mesmo assim ainda queira contigo coabitar numa harmonia de notas ressoantes que só dois corpos transmutados em um com gemidos e sussurros quentes sabem transmitir que é essa fala louca de amantes que já não procuram em outros corpos o que só aquele sabe dar será que existe outro alguém que se encaixe em todo esse maldito vazio? 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Autopsia Humana

Ismael Nery, Nu no Cabide, 1927

Acreditava que seu pequeno mundo estava consolidado em bases sólidas, tingia todos os dias como criança, cores para sustentar sua fraqueza de espírito, assim o viam, porém, ele-garoto-maroto se sentia muito esperto, sempre aproveitando das situações, instinto comum a todos, rearranjando os laços de amizade conforme os ventos do sul ou norte, não sabia bem, corriam e entravam pela sua janela, de lá pensava estabelecer seu trono, manchado por várias qualidades que já haviam se ausentado por tê-las vendido.
Sua delicadeza desprezada por uma submissão aparentemente segura o distanciava de todos, somente os escolhidos por seu rei poderiam coabitar no mesmo espaço sereno, senão todas as forças astrais conspirariam para tornar o ambiente hostil, assim os observadores acreditavam, assim agia, afinal era seu mundo, por que questioná-lo? Ao fazê-lo estaria eliminando o que se tornara, suas justificativas escorregavam num mangue que se formara em seu entorno, sem ver, dar conta, reparar, diante de tanta serenidade escondia uma passividade que mascarava seus mais obscuros pensamentos, só embriagava com seu falso brilho os que não o conheciam.
Por quanto tempo viveria assim? Quem poderia responder, aliás, poucos concentravam forças para entendê-lo, porém não percebia, o mundo gira dessa forma, as pessoas não tem culpa, só não podem se revestir da couraça da inocência, essa quando foi embora se despediu para não mais voltar.

domingo, 15 de abril de 2012

En(lace)


Alguém insistente batia a porta. Aquilo o incomodava de tal maneira que saiu de seu banho e fora atender, alguma irritação pairava sobre seu rosto, estava se sentindo tão desalinhado com a vida e tudo o irritava facilmente, respirara fundo, o mais fundo que podia, sabia que a culpabilidade estava em si, na maneira de lidar com as coisas e com o próprio mundo.
– Pois não? – a voz era terna, porém certa frieza e amargura, descompasso notável. – Me esqueceu em algum momento da sua vida, agora estou cá para habitar contigo, se me permitir sentar – se aconchegou como pode -, e estarei contigo em seus piores momentos, retorno a promessa que fiz e de maneira áspera quebraste comigo, mas não faz mal, esqueçamos o passado, estou tão ansiosa para ouvi-lo, por favor não se culpe se interrogue, sempre foi um esmero no ato de se auto-interrogar.
Seu coração se esfriara no momento que ouviu essas palavras, um vento gélido enrubesceu sua face, não se via, mas imaginara a imagem que de certo produzira ao ver ali diante de si alguém que veementemente pedira para lhe deixar, ir embora e lá estava novamente a ressoar palavras tão racionais e sinceras, a sua frente, a abrir-se com tamanha destreza.
Resolvera então deixá-la entrar, a timidez lhe percorrera, havia há algum tempo mandado-a embora e agora voltara assim, demonstrara uma simpatia incrível e a ausência completa de remorsos, podia sentir que não havia ali naquela fala, na cena que se descortinava qualquer resquício de amargura, rancor, esses sentimentos que percorrem os seres mais sensíveis.
O primeiro ato se desenrolara com facilidade, passado evidentemente o susto e a vergonha instantânea que lhe percorrera. Sentaram-se, de prontidão ela lhe soou com docilidade: - não se incomode sempre me encaixei perfeitamente em qualquer lugar na sua casa, seja aqui, onde moras realmente durante todo o ano, no seu trabalho, sempre sempre sempre estive contigo, agora me responda acha que te atrapalho ou lhe atrapalhei?- Seu rosto se encheu de uma fúria incerta que se folgou em si e despejou em sua fala – me perguntas se me atrapalhou? Talvez por conviver tanto contigo já não saiba conviver com outras pessoas, a lida cotidiana com pessoas assim como eu não é fácil, sabes bem que não sou maleável, flexível, cada vez mais me torno desconfiado das pessoas, me questiono todos os dias, a todos os momentos em relação ao comportamento dos outros para comigo, você parece uma cicatriz gigante impregnada em cada parte do meu corpo, alguns mais instintivos conseguem observar-te em mim me deixando encabulado, vacilante no meu falar, no comportar, como pensa que não me atrapalhou? - Como se esperasse essa pausa e a pergunta logo após o desabafar, ela com tamanha delicadeza no gesto, se inclinou e começou a tear suas palavras – estive contigo durante anos a fio, a ver-te envelhecer e não me comovias, convenhamos sempre optou por crescer e isto demanda tempo e marcas, quando ficavas sozinho querendo fugir do mundo, que sabemos bem o que denominas como mundo nada mais é que as pessoas que o habitam, em certos momentos detestava até a presença de seus pais tal era sua ambição, de momento, para se isolar, e quem estava contigo, preste atenção no que digo c-o-n-t-i-g-o, não estou a lhe cobrar nada, nem mesmo a jogar sobre seus ombros uma dívida que tenha que ser paga algum dia, não!, jamais ambicionei nada disso, além de seu próprio crescimento, quem respondia suas perguntas, quem te acalentava quando chorava em algum filme, não haviam motivos, porém suas lágrimas estavam tão acumuladas que jorravam num simples mirar de uma cena colorida ou nalgum ato de carícias, pois saiba: todas as perguntas foram respondidas pelo seu próprio ser, todo esse conhecimento que tens é teu, aprendeste sozinho no decorrer do tempo, evidente que com a minha companhia ao seu lado e por que agora resolve me sentenciar como causadora das suas maiores percas, dos seus desatinos e infortúnios? Agora quem faz as perguntas sou eu e espero respostas sinceras!
A cada frase entoada ali em sua frente, ele que já estava exausto se afundara em seu acento, um sofá velho, empoeirado na sala, a refletir, a rebobinar a película que o levaria até o âmago de suas lembranças, realmente sentira falta na época dos seus estudos daquela presença, só a encontrava quando se isolava de todos, entrava em seu quarto assistia a algum filme e suas lágrimas realmente vinham a tona, lembrando-o que existia dentro de si uma função de emocionar-se. Sempre fora, como dito, alguém que se questiona demasiado e pensara que isso o levava a sofrer, por diversas vezes se achava masoquista, devia sentir algum prazer naquela sensação que o percorria de tal forma que ia até as últimas conseqüências para passar por aquilo: o sentir, agora aprendera a lidar com o sofrimento, não podia controlá-lo tarefa que, ao menos a si, é impossível.
Sem mais poder pensar dissera: - realmente tens razão, vejo tantas pessoas desencantadas com algumas pequenas vitórias que se acumulam no pequeno pecúlio humano, essa falta de gana para viver a vida que por si só já é enfadonha, medonha, porém melhor ser do que não ser, vê-la aqui novamente comigo me remete a Nietzsche sobre o eterno retorno, parece que as cenas se repetem, algum dedo apertou o botão de rebobinar e cá estamos, você diante de mim e eu a reconhecendo, como pode?   
Pela primeira vez ela pausou e sem delongas respondeu: - eu sempre estou contigo, não percebes? Me faz questionar quando me recusas, não tens idéia do quanto me faz pensar, fico imersa no refletir é quase uma aura que me cerca, exatamente pelas suas atitudes, quando menos espero forças tudo que se move dentro de si para me expelir, para me expulsar do seu convívio, não vês que fico sempre a espreita a te esperar, esperar, esperar, e-s-p-e-r-a-r, hoje pode me responder sem mentiras, pois vejo mais do que nunca resplandecer em você aquela sinceridade amarga, ácida, é tão complicado conviver comigo?
Waldomiro Mugrelise 
Realmente estavam sendo sinceros um com o outro, como nunca haviam tentado, pensou acerca disso rapidamente e lhe respondeu na lata – Sim. No início me sentia preso a ti, era desconfortável, me causava certa dor no peito, pensava que era por causa do cigarro e minha descontrolada rotina, o passar do tempo me indicou que talvez fosse sua presença mesmo a me causar insônia, um mal-estar contínuo que carregava comigo. Depois de alguns insucessos devido a minha imaturidade, que me acometia em momentos impróprios, mas essa parte eu ainda não compreendo totalmente, entendi que você era a única que realmente me amava, tinha comigo uma espécie de doença: egocentrismo, que de maneira geral não me era saudável, percebia que docemente conseguia enxergar meus detalhes, o olhar, as conversas que mais pareciam um monólogo e o eram, mas eu comandava, fazia as brincadeiras, perguntas e dava as respostas, a minha maneira, do meu modo, então comecei a te reparar melhor, seu modo de me tocar, emocionar, porém essa última paixão foi quase um grito que deveria ser dado, então te expulsei, mas vejo que não preciso nem pedir perdão, pois esta tão serena.
Sabia que suas palavras poderiam e podem se tornar obtusas. Conversaram incansavelmente, não percebiam as horas que corriam por sobre suas cabeças, corpo, rosto, simplesmente iam, escorriam, assim ficaram durante um bom tempo, até que o sono o abateu, o embriagou de tal maneira que recostou sua cabeça em seu colo, docemente ela com sua delicadeza, que era sinal da conquista dele através do tempo mexeu em seus cabelos, ambos acordavam juntos, dormiam juntos, comiam, bebiam vinho na varanda a chorar, rir, sempre ele acompanhado dela, assim não tiveram mais medo de conviverem juntos, pois um sabia como absorver do outro o gesto, a palavra ideal. Ele nunca mais teve medo da solidão, pois o dia em que decidiu sair atônito do banheiro, quase que para blasfemar com aquela que batia a porta, abriu e deu de cara com a própria Solidão, que espontaneamente decidiu deixá-la entrar e ao contrário do que muito se diz por ai, nesse mundo do qual ele evita por vezes, ele dizia e sentia, e podia dizê-lo em bom tom: sou feliz com a minha só m-i-n-h-a Solidão! 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A rotina do Sr.º Sono

Boris Kossoy
Preparara-se para dormir como habitualmente fazia. Todos, com o tempo, criam rituais para o momento de se deitar e com ele não era diferente. Logo após se olhar no espelho e notar suas olheiras, que outrora lhe disseram serem profundas ficou a pensar por alguns minutos ente sua imagem refletida no espelho, se seria cansaço, tempo ou apenas algo genético, de imediato afastou tal pensamento e tentou se fixar no ritual: escovar os dentes e se aprontar para dormir. Ao entrar no quarto, organizou sua cama como de costume, vestiu sua roupa própria para deitar-se e apagou as luzes. Sempre refletia muito no escuro – desde pequeno - habituara há ficar alguns minutos a retroceder no seu dia ou na sua semana, nos dias mais conturbados simplesmente dormia, porém estava disposto a ficar deitado a imaginar o futuro que planejava tão ansiosamente, o que lhe parecia perigoso, pois o destino por vezes é implacável.
Logo sentiu um aperto no peito, tentou afastar a ideia e a imagem que tinha se tornado comum nos últimos dias sendo-lhe insuportável a ideia de se centrar num ser que sumira de sua vida, sem deixar nenhuma explicação plausível. Concordava consigo: algo intenso quando o toca, mesmo que por apenas dois dias o deixava nesse estado de imersão, não sabia bem se era sobre si ou sobre o mundo. Como pudera deixar se envolver a tal ponto? Um bom questionamento sem resposta. Entregara-se de uma maneira tão sem reservas que lhe sobrara apenas a última alternativa – que era repetido diversas vezes – tomar suas pílulas e tentar por fim esquecer. Sabia bem que não esqueceria, mas sentia que ao menos amenizava a dor, essa tão estranha, atípica, o envolvia a noite e não lhe largava, a solidão que estava tão aceita agora estava prestes a lhe mover para a loucura do nada. Quando chegamos perto do nada o mundo fica mais confuso, sem cores, motivação, e o que mais lhe preocupava era toda a falácia que propagava aos seus amigos próximos, se sentia um completo cretino por não seguir seus próprios conselhos dados.
O cheiro que ficara no lençol que os envolveram no último encontro desapareceu, inutilmente pegou e o segurou firme a apertar com suas mãos levando ao seu nariz, a respirar fundo e dando tragadas fortes para tentar encontrar ali algum resquício do cheiro misturado dos dois corpos, lembrava que somente si gozara, quando perguntara entre sussurros e escuridão se o corpo a sua frente queria gozar recebeu como resposta uma negativa. Talvez ali houvesse sentidos que escapavam de sua compreensão, talvez ali residisse o erro fatal do qual não deveria ter cometido. Provável que tenha se adiantado em algo que demandaria calma e paciência, para que acontecesse no momento mútuo de aceitação.
Percebera a tamanha tolice que o levava a pensar em tudo isso. Se ao menos seus pensamentos tivesse o poder de invadir a mente de quem era o causador de toda essa euforia melancólica se sentiria mais satisfeito, pois estariam conectados de alguma forma. Novamente tentou balbuciar algumas palavras, que na verdade para si era uma oração, só não sabia se se referia a algum deus ou ao tempo. Qual será o acordo que vamos chegar desta vez? – perguntara pra si, só conseguia concluir que não se deixaria mais se envolver, não iria se entregar, deixaria apenas a volúpia o inflamar, nada mais do que prazer, assim se sentiria importante, especial na vida de quem o engolisse em noites quentes, preferia o calor pois aumentava o suor e os corpos poderiam colar gerando a sensação de que o momento seria eterno, talvez o fosse – gesticulou com as mãos e em voz audível – eterno o momento que os lábios se colam e que com a saliva deslizam de um lado ao outro, um na boca do outro, a dividir e se unirem, a sentir a respiração e a tragar o mesmo ar.
Antes de se entregar ao sono falou sozinho: - só cometi um erro, não fotografá-lo dormindo comigo, assim teria aquele momento para sempre na ilusão de uma fotografia.
Painter Marta Hegemann, ca 1925 -by August Sander

Esquizofrenia: Grupo de distúrbios mentais que, basicamente, demonstram dissociação e discordância das funções psíquicas, perda de unidade da personalidade, ruptura de contato com a realidade.[1]

Cada um de nós, alguns a ir outros a vir se encontram na estação, somos ilhotas a nos mover para outras que talvez possam nos preencher, trazendo alguma novidade na mesmice habitual.
O sol que se furtava se apresentou irritante; os vestígios deixados pela chuva de outrora absorvidos pela luz que reflete fortemente sobre a terra.
Assim se acumula a vida nos poros, rosto, corpo e alma que transborda sentimentos tão variáveis quanto às cores que nossos olhos podem captar. Tão incerta é a alegria, visita-nos dia sim, dias não, as mãos dadas caminham a tear refrões para quebrar o gelo dos corações que se aproximam, chocam e seguem. As cenas poderiam transitar facilmente como nos filmes, com várias categorias: ação, drama, terror e etc. talvez seja a vida um filme. Se assim o for o roteiro é incerto e a categoria duvidosa.
A transitar no real essa cidade nos engole, a vontade se choca com o promiscuo tão difundido e comum. Não há ai o estranhamento e sim a perda da expectativa. Busca do sentir insano, que se configura naquele pulsar de vida a qualquer custo, provavelmente o cigarro lhe faz sentido quando pensa sobre a busca, seu corpo se sente tão oco ao ponto de preenchê-lo por fumaça, ciente que a mesma é expelida.
As vozes que o cercam na rua falam sobre o nada que é a sua vida e a vida de quem emitem esses sons audíveis.
Os carros com a velocidade passam por si, pelas ruas e seguem algum destino, ponto de encontro, a ausência rodeia a todos que há essa hora estão a procurar desesperadamente algo indistinto. Outros se satisfazem com as imagens, luz e a voz que saem das suas televisões, no final todos estão ausentes na loucura que é a falta de sentido: a vida; a procurarem o eu que em algum momento se chocou com outro e se perdeu. Melhor a perda de sentido que a certeza inocente, que como damas-da-noite espalham um frescor inebriante que confunde os sentidos. Melhor a solidão pesada, que a certeza de ter ouvidos a lhe escutar. Melhor o caminhar do que a velocidade a sucumbir o contato.
Estamos de algum modo, conectados e desconectados na cegueira que se apodera de nós.


[1] Miniaurélio

Desconhecidos

Days Day - Man Ray

O que os separavam? – indagou-se por longos dias de uma semana de descanso. Colocava-se sempre a fumar seus cigarros no corredor da casa, próximo a lavanderia, certamente saberia responder a sua inquietante indagação: uma parede, exatamente! aquele muro plantado no final do corredor que os separavam. Podia ouvir suas conversas com os amigos que lhe visitavam, suas canções tiradas ao violão, com dedilhados fortes, uma voz macia e calma, as músicas de Bob Marley a romper o tédio das tardes, lembrava até – e nesse momento ruborizava – um orgasmo que alheio ouvira dele com alguma mulher, o som alto dos corpos a sentirem um intenso contato um com a pele do outro, os gemidos que se sucederam de forma cada vez mais rápida, até gozarem vida e a gargalhada final – habitual dos corpos que gozam e se sentem plenos.  Acreditava até na hipótese de ter sentido de leve o cheiro de maconha. Interessante era observá-lo sem vê-lo.
Não lhe era inegável a vontade que surgia de quebrar esse muro e ver por fim o que se escondia de seus olhos. Não era um desejo carnal, que o desconhecido lhe despertava em raros momentos, e sim a idéia inaceitável que dois seres que poderiam se aproximar e conversar estavam separados por uma inútil convenção ou pelo muro. Talvez até soubesse quebrar o gelo monótono que assaltam as pessoas desconhecidas quando se esbarram. Sabia, porém que tal ocasião inesperada não viria a acontecer, como tantas outras que só passam de um pensamento-flerte.
Dentro de si, as coisas se moviam de forma estranha, uma parte sua desejava avidamente se esconder de todo o mundo, isolar-se numa completa solidão e a outra de conhecer o máximo de pessoas que lhe fosse possível e absorver tantas quantas histórias pudesse.
De certo haveria, entre marte, júpiter, saturno, algum lugar reservado para aqueles que querem se isolar de todos, ficar só a admirar o universo, desolados e desiludidos com qualquer forma de contato-afeto-amor, talvez fosse essa a vontade que imperava e a mais latente. Regressar a si deveria trazer-lhe calma e trazia, mas a vontade de estar, viver só era intensa e suficientemente maior em si.  

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

L'enfant et la colombe, Robert Doisneau, 1958 

O satisfeito vagueia pela noite e se lhe perguntassem o porquê seria simples a resposta: - a noite é calada! Esse silêncio que muitos teimam em entender diz tanto para quem pouco tem além de si, e muito aquém-além do ego-centro, apenas o silêncio, afinal todos anseiam pelo belo, a própria alma é acalentada pela poesia e não reclama do carinho recebido, à noite assim lhe é o próprio alento que seu rosto, corpo tão ávido necessita, nada nesse instante, tão dele e da noite, entre o último raio de sol e a escuridão a banhar-lhe é tão completo-carinhoso.